3.2.16

compêndio

a exaustão vai-nos ganhar a todos -

nem a areia se vai apoderar do mar,
nem o mar irá vomitar a areia que te trouxe à boca do horizonte

                                                       (porque a vida é feita à boca).

e aos nossos corpos cruzados e esticados em ângulos convergentes
de fatalidades desejadas e confissões incoerentes

damo-lhes uma réstia de consumo a que chamamos amor
na esperança de um éden encontrado no nervo de um peito

a que chamamos desejo

e o que sobra é a brisa de fim de tarde idílica a passar-nos pelos olhos
sem que nós a engracemos.

21.1.16

súmula

em quê é que se acredita?

a fé carregamo-la dentro do peito crucificado
e a morte, facienda.

portanto pergunto: em quê é que se acredita
quando a crença é na descrença

e o niilismo faz de nós o nada.

10.11.15

#21

não se escreve sobre nós próprios.
a sentença é reconhecerem-nos fora dos limites daquilo que dizemos ser ficção;

a realidade assusta -
e ninguém a quer viver.

26.10.15

a·li·ar

só temos um único ponto de convergência

e é quando o que é teu
passa a ser meu
que nos tornamos aliados.

23.10.15

em prosa II

A história começa com um revólver apontado à cabeça de Archie. Vê-se a mão nervosa de Lewis, ensanguentada pelas peles que roeu antes de sair de casa, decidido a ver os miolos de Archie parecerem um Pollock ao escorrerem pela parede branco-pérola diante dos quatro olhos que a fitam.
A cena dura uns vinte segundos até Lewis o fazer. Apesar de ter chegado decidido, matar Archie requer concentração e um ar imponente sobre o corpanzil dobrado do mesmo. Parece feito de mármore - não por ser difícil de matar, isso todos somos feitos do mesmo tecido fácil - é pela cor que se vai tingindo desde a face estupefacta, aos dedos dos pés trementes. A palidez nunca foi hábito seu e agora vê-se ali quase reflectido na parede que vai assistir o seu corpo projectado.

“Ninguém merece o sono eterno tão cedo, Lewis…”, e o alocutário retorque com o tom arrogante que outrora costumava ser de quem enunciou a frase de forma tão suplicante, “Archie, habitua-te que vais parar lá acima daqui a nada”.
Quem não aguentou ficar sem o seu melhor amigo foi Lewis: guardou o agora deteriorado corpo de Archie em casa, sentado no seu sofá predilecto e ali ficavam em monólogos pelos dias fora. 

A demência e a saudade foram-lhe ingratas - e é num momento de lucidez que Lewis pega numa corda e decide acabar como réplica do “O Grito” de Munch. 

Pelo menos deram belas peças de museu.

18.10.15

vexame (ou segundo auto-retrato)

a maledicência que é desenterrar os cadastros dos outros, 
o desprezo light com que os digo,

as injúrias pretendentes ao carinho que vos tenho 
                                       - e alguns que não tenho. 

fazer do amor um restringimento,
tornar incredíveis todos os axiomas das relações humanas,

a afronta que te faço ao espelho quando este é mais uma barreira a impor-se, 
e o vexame que cresce por escrever medos romanceados.