10.4.11

Pinceladas da Vida

"Viver é um eterno estar à janela" Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Do lado de dentro estou eu rodeada pelas minhas tintas e pinceis. Do outro lado estão os ruídos silenciosos dos que passam pela calçada, imginando que ninguém repara neles. Eles é que não reparam em mim. Perto da janela, as minhas tintas misturam-se como as nossas mãos se uniam, criam tons diferentes como os nossos dedos se entrelaçavam. E do lado de fora, continuam as madames de salto alto a correr aos saltinhos. Pousei os pinceis. Abri a janela e entrou uma rajada de vento que me percorreu a espinha: de cima a baixo. Senti o Viver. Senti o meu viver e o viver dos outros que continuavam a passar. Com um olhar superior olhei-os. Não com desprezo, mas com superioridade. Não com ignorância, mas sim com o simples facto de saber o que eles estão a fazer, e eles nem reparam que estou de braços pousados no parapeito quente de ter levado com os raios de sol. E tu passaste, e nem reparaste. Eu olho-os com superioridade, eles nem me olham sequer. Viver... Sim, é estar à janela. A janela apenas divide dois mundos: o nosso mundo e o mundo dos outros. E assim eu vou vendo quem passa. Talvez, alguém, algum dia, passe também por mim. Quando esse dia chegar, eu pinto-o de vivacidade na minha tela, ao pé da janela.

Eu a reparar no mundo dos outros. Mas desta vez, a minha janela é a minha câmara fotográfica.

3 comentários:

  1. Muito bom , concordo :) sou apenas um ser que gosta de falar com outros seres e passear pela net

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